sexta-feira, 26 de março de 2010

Cada um sabe onde o sapato aperta


Julgar ao outro e emitir juízo sobre atitude alheias quando tudo, ou pelo menos menos o essencial, vai bem é muito fácil. Difícil é se colocar no lugar de quem está submetido às mais diversas situações vexatórias, compungido pelas circunstâncias adversas tendo que lançar mão de recursos nem sempre convencionais. É nessas horas que sentimos o quanto somos frágeis. Quando todo o peso cai sobre os ombros de um simples ser é que passamos a pensar de forma mais flexível e deixamos a jactância que caracteriza os humanos em geral. Não quero afirmar a inexistência de absolutos, princípios e valores irrefutáveis e invioláveis. Entretanto, reafirmo a necessidade de compreensão. Pensar no significado de "chorar com os que choram" e "alegrar-se com os que se alegram". O mesmo mundo que faz o "povo inteiro cantar", não tem graça alguma para alguns, cujo mundo foi visitado por adversidades e desgostos por vezes invisíveis mesmo aos olhos mais aguçados.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Word x Excel


O ano de 2009 foi um ano difícil. Filho da crise financeira que se abateu sobre o mundo em 2008, 2009 nasceu com todo mundo fazendo cálculos e mais cálculos. Daí o apelido que lhe dei: ano Excel. Confesso que tentei e em parte até consegui continuar e até voltar a ler e escrever coisas que não tivessem relação com a economia e suas previsões apocalípticas. Entretanto a pressão trazida pelas medidas realizadas para conter a crise aos poucos foram me desgastando e me clarearam mais alguns fios de cabelo. Espero um 2010 Word, sim, da palavra. Em que possamos pensar, escrever, falar, filosofar. Possamos viver sem sobressaltos, possamos sonhar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Dores do crescimento


Os métodos divinos de construção são muito diferentes daquilo que podemos chamar de um processo normal ou de moral ou de politicamente corretos. Se imaginarmos a origem do que chamamos de nosso universo acontecendo com explosões e continuando a ser assim todos os dias, teremos a perfeita dimensão dos processos criativos/destrutivos de Deus.
Tudo na natureza se cria a partir de destruições/transformações. Para nós é inconcebível a violência de um terremoto de uma tsunami ou a idéia da morte em si. Todos os dias estrelas explodem, células morrem, a natureza se recria. O desenvolvimento muscular é acompanhado de dores. As crianças sentem dores do crescimento.
As crises são o modo de criar novas oportunidades. Disseram antes de mim mas eu diria também: morre o boi, alegria do urubu. E assim vamos vivendo a vida de encontros e despedidas. O trem da chegada é o mesmo trem da partida. E por aí vai.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O que é uma vida bem sucedida?


Estou lendo o livro do francês Luc Ferry. Após ter assistido sua palestra no ano passado aqui em Salvador resolvi conhecer um pouco mais do pensamento deste filósofo atual. O autor parte de um pressuposto pós moderno, considerando que nem a religião nem os grandes ideais da humanidade puderam levar o homem moderno ao lugar que se poderia definir como o destino de uma vida boa. A vida boa deu lugar à vida bem sucedida e segue algumas idéias de Spinoza e Nietzche .

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A espiritualidade que Deus reprova




Olhando a história bíblica de Saul, todo mundo já sabe que histórias bíblicas me fascinam desde que eu era apenas uma criancinha, descobri alguns traços de uma falsa espiritualidade, muito parecida com a que vejo nos nossos dias. Falei sobre isto na Igreja em Periperi e tentarei resumir aqui a mensagem.
A primeira observação que convém fazer é que não tenho qualquer compromisso político-religioso com o povo judeu, nem nada contra os palestinos. Vejo as histórias destes povos na Bíblia como formas de transmissão de lições preciosas para os homens de todas as épocas e que precisavam dos atores para a representação dos arquétipos (não sei se esta é a palavra que melhor traduz o que quero dizer aqui, mas não achei outra melhor). Vejo os princípios contidos nas narrativas e o brinquedo de Deus, ocultando verdades para que possamos procurá-las na história.
Assim Saul é um personagem importante. Primeiro rei de Israel, altamente admirado pelo povo e que obtém pequenos êxitos militares no início do seu reinado. Na realidade os triunfos inicialmente alcançados são vistos como provocações pelo povo que aqui aparece como o outro lado da história, os filisteus (de Philistia ou Palestina).
Provocados os filisteus acampam-se cercando os israelitas enquanto Saul começa a ver o seu povo esconder-se, fugir ou até mesmo passar para o lado do inimigo. Que faz Saul? Ele aguarda durante sete dias a chegada do profeta e sacerdote Samuel. Ao final dos sete dias percebendo a demora do profeta o próprio Saul oferece sacrifícios a Deus e então se sente preparado para a guerra. Assim que ele termina Samuel chega e questiona o ato de Saul para em seguida declarar-lhe a reprovação de Deus. Saul não deixará sucessor no trono.
Por que Saul merece uma reprovação tão séria? Seu culto, a oferta de holocaustos, baseou-se em premissas reprováveis. Sobre isto considerei três aspectos. O primeiro: um culto baseado no medo. A religião do medo leva as pessoas a ofertarem, orarem, fazerem penitências e toda uma gama de rituais, mas não obtem qualquer favor perante o Deus verdadeiro. Segundo um culto baseado no misticismo. O número sete, muitas vezes considerado o número da perfeição, foi o número de dias que Saul aguardou a chegada de Samuel. A crença de Saul era a crença de que aquele culto tinha que acontecer no sétimo dia senão ele estaria perdido. Deus não se prende à mística de nenhum número e reprova qualquer tentativa de manipulação de poder através de números. Em terceiro lugar o culto de Saul era mera demonstração de um ato formal. Ele deixa de fazer a sua obrigação que era a do líder militar e acredita que oferecendo holocaustos a vitória viria. Deus não está nem aí para nossa formalidade espiritual. É muito mais espiritual cuidarmos cada um daquilo que nos diz respeito enquanto homens, enquanto cidadãos.

sábado, 20 de junho de 2009

Perdão



A compreensão plena do perdão só é possível de ser obtida por aquele que sofreu uma grande ofensa. É muito fácil desejar ser perdoado. Difícil é perdoar. Claro que perdoar é proporcional ao tamanho da mágoa sofrida. Jesus ilustrou isto ao contar a história de alguns devedores perdoados por um credor. Cada um deles tinha uma dívida diferente, mas aquele credor perdoou a todos. Em seguida Jesus pergunta qual daqueles era mais amado pelo credor e recebeu a resposta de que mais amava ao que mais perdoou.
A outra proporção observada nesta equação diz respeito ao tamanho da ofensa em comparação ao tamanho da expectativa. Quanto mais confiamos e amamos alguém, maior o tamanho da decepção que sofremos quando traídos e maior a mágoa. Consequentemente quanto mais amamos maior é o perdão. Quando somos indiferentes é tudo tanto faz. Quando muito estimamos mais duro é o golpe que recebemos.
Pois então, aí está o belo e o mais difícil de compreender e aceitar no Evangelho pois sendo Deus todo justo, bom, santo e outros atributos de perfeição que a ele se possa atribuir, simplesmente perdoa a humanidade pecadora. É demais para a cabeça do indivíduo que se ofende e encoleriza quando sua expectativa não é correspondida. Quando não consigo perdoar qualquer coisa feita contra mim, fecho-me para a possibilidade de aceitar o perdão de Deus, pois sei que não mereço. É por isso que, na oração do Pai Nosso, Jesus inclui : “perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.
Bem aventurados os que aprenderam a perdoar pois eles serão perdoados.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Infância tardia


Há uma fase da vida mais bela que a infância? Depende. É a resposta mais correta para uma série de perguntas e bem aplicada a esta. A infância é bela sim e mais que isso, é importante que seja bem vivida.

Brincar, perguntar, errar, chorar, correr ao invés de andar. São tantas coisas que se pode fazer enquanto criança e que ficam absolutamente fora de propósito quando da pessoa se exige uma atitude adulta. Assim é não apenas bom que se faça tudo que se aplica a esta fase quando nela se está, como é imperativo que assim seja, pois do contrário as manifestações belas e apropriados da infância ganham o feio nome de infantilidades. Infantilidade é a denominação dada às atitudes de um adulto que não são próprias de sua idade.

Adultos são seres que tendo já vivido a sua infância e adolescência perderam o direito a certos comportamentos, em especial aqueles considerados improdutivos e/ou inadequados. A convenção social estabelece e todos conhecem aquilo que se pode admitir e se espera do adulto. Ai daquele ser que não segue as normas estabelecidas.

domingo, 31 de maio de 2009

Entre o individual e o coletivo


Qual é o maior problema? O que resolver primeiro? A quem atender e que direção seguir quando se está tratando do interesse coletivo? Tomar decisões que impactem a vida alheia, produzir resultados que atendam os interesses da maioria e ser capaz de cuidar da própria vida e interesses, sendo ético, honesto e coerente são os desafios propostos a quem quer ser útil à sociedade da qual faz parte.
Necessidades, carências, percepções a respeito do seu ambiente. Somos os mesmos a muitos milhares de anos. A busca das melhores condições de vida é legítima e desejável, entretanto há sempre conflito entre o interesse individual e o coletivo. Quando o coletivo é enfatizado há o risco de se fazer as coisas de modo tão impessoal que injustiças sejam cometidas. É tratar como iguais pessoas diferentes. Quando o direito individual prevalece, parece ser assim no Brasil, presenciamos muitas vezes o desconforto daqueles que não estão sendo atendidos em um determinado momento pelas medidas adotadas, para em seguida verificarmos o quanto se beneficiam das mesmas medidas e as exaltarem.
Ouvir, escutar, tentar compreender. Muitas vezes este é o único caminho. A escuta interessada nos problemas alheios. Mas é preciso ouvir várias opiniões. A verdade que parece jorrar clara de uma pessoa encontra total resistência na verdade da outra. A certeza de um é a dúvida do seu próximo.